Mundo digital
Data:
26/04/2009
*Neilton Costa
Quanto mais se tenta explicar o que é ou o que vai ser a TV digital, mais confuso parece ficar o cidadão comum. Isso talvez se explique pela miscelânea de informações oriundas das mais diversas fontes e segmentos da mídia ávidos, para esclarecer esse novo paradigma tecnológico da comunicação que promete, entre tantas coisas, promover uma revolução nas formas de acesso, produção e comercialização dos conteúdos televisivos. Informação realmente é tudo nesse momento. Porém, muitas pessoas no afã de se incluir nesse momento da televisão se julgam capazes de discutir e até mesmo de teorizar sobre o tema. São professores, jornalistas, profissionais de TI, educadores, entre tantos outros, o que tem objetivamente desorientado muito mais do que orientado, de uma forma geral, as pessoas. Por conta disso, trocar o velho aparelho de TV ou, simplesmente, comprar um novo se transformou numas das decisões mais difíceis no que diz respeito à aquisição de equipamentos eletrônicos. Os novos aparelhos de TV são bonitos, atraentes e fascinantes, sejam eles de plasma ou LCD, mas é aí que surgem as dúvidas: qual é a diferença entre eles? Quais as suas vantagens e desvantagens? Será que eles são totalmente compatíveis com a TV digital que se anuncia? Será que essa é a melhor hora de adquirir um aparelho de TV novo? O impulso de consumo diz que sim. Mas, as dúvidas que se multiplicam a cada dia e os preços, ainda salgados, dos aparelhos evidenciam que não. É uma sábia decisão do consumidor só adquirir um produto ou serviço a partir do seu total conhecimento. Ou seja, qual a sua aplicação, quais os seus recursos e operacionalidade, para que a partir da obtenção de respostas para essas questões se convencer da sua real necessidade. Como no nosso país a TV digital é objeto mais de dúvidas do que de certezas, o clima no ato de adquirir o aparelho transformou-se num dilema para os consumidores. Esse dilema, juntamente com a crise posta, são as principais causas da retração da demanda dos novos aparelhos de TV digitais, inviabilizando, consequentemente, a redução dos seus preços em função da baixa escala de consumo. O processo de esclarecimento sobre o que é a TV digital e as suas potencialidades deveria ser atribuição das próprias emissoras de televisão, mas o que temos visto é um vazio de informação, o que nos leva a concluir que as mesmas não estão absolutamente seguras, principalmente as emissoras locais, das suas funcionalidades e potencialidades. A maior prova disso é a entrada no ar de emissoras no padrão digital sem informar em que canal estão operando, muitas pessoas têm sintonizado o canal tradicional na tentativa de receber o sinal digital e se frustram, com razão, pois não sabem que para receber o sinal digital precisam sintonizar um outro canal. A TV digital é um processo que já está em discussão no Brasil a pelo menos 12 anos, porém, muito pouco, ou quase nada, foi investido pelas emissoras locais para a capacitação dos profissionais das áreas fundamentais para o desencadeamento do processo, as áreas de tecnologia e comercial. Só agora com o calendário de digitalização se exaurindo e com a pressão das cabeças de rede, as emissoras locais às presas começam a dar os primeiros passos nesse sentido. Isso reflete objetivamente na falta de informação do consumidor para essa tecnologia. Bem, mas o que é finalmente a tão propalada TV digital? A TV digital é uma nova forma de processar, transmitir e receber sinais de televisão. Na TV analógica um canal é utilizado para transportar o som e a imagem de uma única programação. Na TV digital, como os sinais dos conteúdos são constituídos de bits, como ocorre nos computadores, uma gama de outras informações pode ser mesclada aos conteúdos de áudio e vídeo da programação, o que torna a televisão digital um ambiente de convergência tecnológica passando a interagir com outras tecnologias de comunicação, como a telefonia celular e a Internet. Os atributos da TV digital que estão ganhando mais ênfase no momento, são a qualidades do som e da imagem. Realmente, o som e a imagem serão grandes diferenciais na TV digital. No caso do som, este terá qualidade digital e polifonia como acontece nos sistemas surround dos home theaters , quanto à imagem, esta dobrará a sua resolução o que resultará em imagens com uma nitidez mais apurada. Porém, para os sociólogos contemporâneos, o atributo que mais contribuirá para as transformações do comportamento dos indivíduos, das organizações e de instituições, como os sistemas de educação, por exemplo, é a interatividade. Sendo a televisão digital uma tecnologia convergente e multimídia, ela conectada aos sistemas informatizados e de telecomunicações terá alargado o seu espectro de possibilidades de aplicação, que vão do comércio eletrônico à educação à distância. A possibilidade de usufruir de todas essas potencialidades da TV digital deve ser levada em consideração no ato da aquisição de um receptor de TV digital, seja ele de plasma ou LCD, esses aparelhos se equivalem no que diz respeito ao processamento dos sinais, as suas diferenças ficam por conta da tela com relação à nitidez, durabilidade e ao consumo de energia. Existe uma tendência natural da substituição dos aparelhos com tela de plasma pelos de tela de LCD, em função do LCD ser uma tecnologia amplamente utilizada nos computadores e que se encontra em franco processo de consolidação tecnológica e mercadológica nos aparelhos de TV. Essa substituição além de ganhos técnicos também provocaria um ganho de escala reduzindo, consequentemente, o preço final do aparelho. Seja qual for a escolha, o consumidor deverá avaliar se o aparelho será capaz de reproduzir fielmente a resolução em alta definição (HDTV) do padrão adotado pelo Brasil, ou seja 1080 linhas de resolução no padrão ISDB-T - padrão japonês adotado pelo país -, se ele possui interfaces com sistemas que viabilizem a interatividade via internet ou sistemas equivalentes. Para os que não desejam trocar os seus receptores de TV no momento, existe a possibilidade de adquirir um conversor (set top box) que faz a adaptação do aparelho convencional para receber a programação a partir de uma transmissão digital, claro com a qualidade compatível com os recursos do respectivo aparelho de TV, ou ainda, continuar recebendo essa mesma programação em analógico até quando durar o prazo dado pelo Ministério das Comunicações para a migração total das emissoras de TV no Brasil. O processo de digitalização dos sistemas de televisão em todo mundo é irreversível, muito em breve não teremos mais a nossa velha e boa TV analógica, assim como, já não temos a TV preto e branco, os LP's e fitas cassetes. Esse processo exige muita competência técnica e gerencial dos que conduzem os sistemas de televisão na atualidade, seja nacionalmente ou localmente. Quanto aos telespectadores, esses devem esperar a consolidação desse processo, buscando criteriosamente o máximo de informação possível, e como eles sempre estão ávidos por novidades, com certeza irão surfar exuberantemente nessa nova onda que se anuncia como já é praxe na cultura de consumo dos brasileiros.
*Neilton Costa - Atua desde 1985 na área de Rádio e Televisão, é professor de Sistemas de Comunicação e de Rádio e Televisão do IFS - Instituto Federal de Tecnologia de Sergipe, Consultor para implantação e gerenciamento de emissoras de Rádio e Televisão, Mestre em Novas Tecnologias aplicadas a Educação e Especialista em Televisão digital, tendo iniciado os seus estudos sobre o tema em 1996 após filiar-se à SET (Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão).
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